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segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Saúde do Coração



Olá leitores e leitoras!
Dando continuidade a série "Saúde do Coração", este é o terceiro texto de minha estimada amiga, Dra. Lívia V. Teixeira. Espero que estejam aproveitando estas dicas valiosas! Boa leitura!

CORAÇÕES INTENSOS

“Quando um coração que está cansado de sofrer/encontra um coração também cansado de sofrer” (Caminhos Cruzados – João Gilberto)

Não faz muito tempo. Sofrer do coração tinha lá o seu charme. No sentido figurado, é claro. Casais se apaixonavam embalados em letras de canções doídas, cenas de amor em cafés esfumaçados, garrafa de uísque como testemunha...
Era a fossa com sua angústia à meia-luz e o seu peito apertado. No sentido literal, o da saúde, corações sofriam um bocado também, mas quase sempre era por desconhecimento de causa. Bastava olhar ao redor para sucumbir aos perigos cardíacos: as propagandas, o cinema, as revistas, todos ensinavam a fumar, a beber para uma vida mais glamourosa. Mulheres estavam liberadas para pesar acima dos 60 quilos, raros homens pensavam em academia, e sedutores famosos como Vinicius de Moraes se orgulhavam de suas barrigas boêmias. E comida light, francamente, era coisa de bandeja de hospital.
Foi ali pelos dourados anos 50/60, que o compositor e cronista Antônio Maria, sucesso absoluto com sua ultra dramática canção “Ninguém me Ama” (olhe os versos: “Ninguém me ama, ninguém me quer/Ninguém me chama de meu amor”), se definia como um cardiodisplicente (isto é, um homem que não ligava para o próprio coração). Ah, o coração de Antônio Maria sofria. Ele se apaixonava pelas mulheres quase impossíveis, brigava na mesma intensidade, e, entre um croquetinho e um sanduíche de pernil nas boates de toda noite, trabalhava em rádio, jornais, TV, num ritmo de maratona. Escrevia e comia como se o mundo fosse acabar dali a duas horas – e, se era para acabar, que fosse diante de uma feijoada.
Contei essa só para abrir um sorriso nostálgico, mas a história de Antônio Maria – e de tantos outros abusados da mesma linha (você vai conhecer alguns ao longo das histórias...) – não acabou bem. Ele teve dois infartos. Depois do primeiro, médicos viviam lhe puxando a orelha, implorando que mudasse seu estilo de vida. Em vão... Antônio Maria estava ocupado demais em ser cada vez mais intenso. Morreu aos 43 anos, gordo, na porta de um bar, como em um samba-canção.
Bom, o tempo passou. Antes que você se assuste, vamos assoprar a fumaça do passado e observar, com clareza, o que fazem os corações intensos deste século 21. Cigarro e pôquer já não têm essa graça toda, é verdade. Agora os homens de todas as idades lotam as academias, as mulheres têm mania de magreza, a vida saudável é apregoada nas bancas de revistas e programas de TV, diet e light são palavras de todos os cardápios, as músicas trazem muitas outras bossas. Mudaram as modas, mas a mania do exagero continua a mesma. Hoje o trabalho é demais, o trânsito é demais, as contas são demais, a violência é demais, o medo é demais, o trânsito é demais. E o coração, ah, esse, está cada vez mais apertado.
Você que talvez tenha sido um cardiodisplicente, sabe que não é fácil. Um dia foi obrigado a parar porque um infarto ou uma angina, ou um cateterismo – algo que ameaçou seriamente o seu coração, fez soar um apito do destino, alertando que era hora de mudar. Depois desse forte impacto na vida que é o infarto do miocárdio, você tem de começar uma nova história. Agora é cantarolar “quando um coração está cansado de sofrer”, como o João Gilberto, e partir para escolhas mais saudáveis.
Acontece que nessas coisas do coração a gente se engana. E, na saúde, é como no amor: balançamos, frágeis, entre verdades e fantasias, com aquela pulga atrás da orelha se é por aí mesmo. Dá pra confiar num filé malpassado? Aquele chopinho sedutor vai acabar com você? O que comer? O que não comer? Um dia você se aflige, pensando que vai passar o resto da vida comendo franguinho e salada sem sal. No outro, anunciam na mídia que foi tudo um engano e que ovo é ótimo. A sensação é a de que já disseram mais bobagens sobre o que faz bem ou mal para o coração do que sobre qualquer outro assunto.
Nesses textos, tentarei ajudar a dar receitas, esclarecer o que é mito e o que é real na alimentação e nos hábitos de vida para você se cuidar com amor. Sim, talvez você se sinta frágil no momento em que leva um susto, mas, antes que aconteça, melhor mesmo é prevenir, e tenho certeza de que quando descobrir que tudo pode ficar mais saboroso, divertido, derramado de vida com os cuidados certos, com a alimentação balanceada, o seu coração vai bater feliz. 
Abuse do seu coração, mas do jeito certo: em vez de se estressar tanto no trabalho, vá fazer algo que goste. No lugar de comidas gordurosas, horas na frente da TV, cigarro na mão, experimente um passeio diário no parque, respirar apressado na paquera no cinema, ou sair de braços dados com quem você ama. O amor começa num olhar novo para quem vive com você. No trabalho voluntário, no sorriso de uma criança ao ouvir uma história que você conta, o amor começa. No telefonema para alguém que já lhe despertou a vontade de fazer grandes planos. No primeiro beijo. A qualquer momento, em qualquer esquina, por qualquer razão, você pode abusar, com poesia e saúde, do seu coração.
Então, ao aprender a se cuidar direitinho, você vai redescobrir as delícias de viver intensamente. E, com a consciência do que lhe faz bem, vai poder atualizar uma das frases mais lindas do nosso cardiodisplicente Antônio Maria: “O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos, amar com a vida inteira”. 
Até a próxima.

“Covarde, sei que me podem chamar/porque eu trago no peito esta dor/atire a primeira pedra, iaiá/aquele que não sofreu por amor” (“Atire a Primeira Pedra” – Demônio da Garoa)

SORRIA, MEU BEM!
Aprender a sorrir para o que existe em cada momento é o melhor jeito de mudar sua vida e evitar novas complicações. Até a ciência se curva às reais vantagens de ser um otimista: estudo do instituto Delfland de Saúde mental, na Holanda, cientistas avaliaram 545 homens durante 15 anos e concluíram que os mais felizes tiveram menos riscos de problemas cardiovasculares."

Lívia Teixeira, é clínica geral e anestesista. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez especialização e residência em anestesiologia na Boston University (USA) e trabalhou no Quebec General Hospital, em Quebec City, Canadá.
Atualmente é médica anestesiologista na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro e sócia e diretora clínica do CEMPE, Centro Médico de Penedo, região Sul Fluminense.

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