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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Saúde do Coração

 


Primeiro as damas...

"...Só que infelizmente não. Ao contrário do que diz o senso comum e as crenças populares, mulheres sofrem, sim, de infarto, quase tanto quanto os homens. E o pior é que correm mais riscos do que elas na hora do diagnóstico. A razão às vezes é um cavalheirismo ao contrário. E vou ainda mais além, as próprias mulheres muitas vezes não valorizam seus sintomas, retardando a procura de um médico, priorizando sempre a saúde e o bem estar de seus filhos e maridos/companheiros/pais.

Agravando essa situação, que beira o trágico, esse (des)senso comum conduz a uma cultura enraizada onde se uma mulher chega ao pronto-socorro queixando-se de dor no peito, muitas vezes os médicos não diagnosticam infarto, imaginam prioritariamente tratar-se de outras causas.

Uma das pautas mais importantes dos movimentos de valorização da mulher deveria ser a agenda da saúde. A maioria das políticas para a mulher do Ministério da Saúde, concentram foco na questão ginecológica, o que é importante. Exames preventivos e monitoramento de mamas para evitar câncer são sim fundamentais, mas nunca vi nenhuma agenda, nenhuma campanha focando na saúde cardíaca da mulher, e cabe lembrar que vivemos em um tempo, onde a mulher, apesar das desigualdades, tem hoje o mesmo nível ou mais, de responsabilidades e é submetida a tanto estresse quanto os homens.

O que como médica e como mulher recomendo é que se permita VIVER. FELICIDADE é a melhor prevenção e o melhor remédio. Buscar harmonia com a vida, se permitir mudanças com frequência, se reinventar e reescrever a própria história sempre que possível, mas com atenção em se cuidar. Um check-up anual e acompanhamento médico sempre, e, pelo menos uma vez por ano, se permitir uma aventura, uma viagem, um passeio.

Sobre se permitir viver, vamos conhecer uma história com final feliz, a história de Laura, que nos traz a inspiração de como é bom e o quanto faz bem quando o coração dá alegres reviravoltas.

Laura se sentia a última das criaturas. Não saia mais de casa desde o acidente de carro em que ela quebrou a perna e a clavícula, e viu o namorado morrer um mês antes do casamento marcado. Nada mais tinha graça. Amigos queriam consolá-la: um chamava para jogar buraco; outro, para pegar um cineminha. As amigas do trabalho tentavam, em vão, arrastar Laura para compras, sorvete, manicure, jantar com um primo do amigo, um gato... Nada. Mais de um ano se passara. Laura não queria nada. Fechou o coração. Vivia meio por obrigação; era o que dizia, para desespero de sua mãe.

Um irmão que morava na Austrália acabou convencendo Laura a se mudar para lá. Ela topou. E na Austrália ensolarada, gente nova, outro idioma, foi tomando gosto pelas coisas do novo. Um dia achou um bilhete no bolso de uma calça jeans que havia esquecido no fundo da mala. 

Uma cena lhe voltou, em flashback, feito novela.

“Você vai para a Austrália? Tenho uma grande amiga lá, brasileira, liga para ela” – era o Diogo, colega do escritório, entregando um papel para Laura na véspera da viagem.

“Tá bom”, ela respondeu, enfiando o bilhete no bolso do jeans.

Ela sorriu da lembrança e resolveu ligar para o tal número. Já estava na Austrália. Podia ser divertido falar de um amigo brasileiro, sair um pouco... A amiga do amigo, gentilmente foi buscar Laura. No carro, contou que pintava e bordava roupas de cama, e que precisava entregar uma colcha numa casa. As crianças, no banco de trás, pulavam como cangurus.

Na porta da casa do cliente, a moça pediu: “Laura, desce você. É só entregar. As crianças estão muito inquietas. Vou ficar no carro”. Laura atendeu. A casa era pequena, linda, com cara de filme – com uma grande árvore em frente da calçada. Tocou a campainha... E, se você apurar os ouvidos, vai escutar os mesmos sininhos que Laura escutou – no coração dela. Na porta, um australiano cheio de saúde, tipo surfista, sorriso tinindo, parecia um anjo. Mas um anjo bonito à beça.

O moço deve ter ouvido os mesmos sininhos, tanto que, dias depois, descobriu o telefone dela. Eles saíram, cainharam à beira-mar, deram as mãos e fizeram planos. A essa altura o coração de Laura estava tão acelerado que ela nem titubeou. O casamento aconteceu semanas depois, com a mesa posta com bolo, champanhe e docinhos na calçada, embaixo da árvore. Quem passasse na rua era bem vindo. Laura, só sorrisos, esqueceu de vez o Brasil, o trabalho antigo, os dramas, as tristezas, os pedidos dos amigos que diziam que aquilo era só um amor de verão, bom para curar a dor, mas que já estava na hora de voltar...

Laura nem aí... Na última vez que visitei Laura com duas outras amigas, em 2016, incrédula vi Laura e o maridão dividindo uma onda animal Bells Beach, na província de Victoria.

Dizem por aí, que até uns anjos de verdade espiavam a cena, sorrindo felizes, mas isso a gente não pode afirmar com certeza..."

*Lívia Teixeira, é clínica geral e anestesista. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez especialização e residência em anestesiologia na Boston University (USA) e trabalhou no Quebec General Hospital, em Quebec City, Canadá.

Atualmente é médica anestesiologista na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro e sócia e diretora clínica do CEMPE, Centro Médico de Penedo, região Sul Fluminense.



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